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3/30/2006 Quem Te Viu, Quem Te Vê . Chico BuarqueVocê era a mais bonita das cabrochas dessa ala Você era a favorita onde eu era mestre-sala Hoje a gente nem se fala mas a festa continua Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua Hoje o samba saiu, lá lalaiá, procurando você Quem te viu, quem te vê Quem não a conhece não pode mais ver pra crer Quem jamais esquece não pode reconhecer Quando o samba começava você era a mais brilhante E se a gente se cansava você só seguia a diante Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado O meu samba assim marcava na cadência os seus passos O meu sonho se embalava no carinho dos seus braços Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia Quem brincava de princesa acostumou na fantasia Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria Quero que você me assista na mais fina companhia Se você sentir saudade por favor não de na vista Bate palma com vontade, faz de conta que é turista 10/9/2005 O que será [À flor da pele] . Chico Buarque [1976]O que será que me dá
...você... 8/15/2005 Pablo NerudaNão te amo como se fosse rosa do sal, topázio ou flecha de cravos que propagam o fogo: te amo como se amam certas coisas obscuras, secretamente, entre a sombra e a alma. Te amo como a planta que não floresce e leva dentro de si, oculta, a luz daquelas flores, e graças a teu amor vive escuro em meu corpo o apertado aroma que ascendeu da terra. Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, te amo diretamente sem problemas nem orgulho: assim te amo porque não sei amar de outra maneira, senão assim deste modo em que não sou nem és tão perto que tua mão sobre meu peito é minha tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho. 8/2/2005 Divórcio em Buda . Sándor Márai"Quem poderia fotografar, registrar, tatear o instante em que algo se rompe entre duas pessoas? Quando aconteceu? De noite, enquanto dormíamos? No almoço, enquanto comíamos? Agora, quando vim ao consultório? Ou muito, muito tempo atrás, apenas não percebemos? E continuamos a viver, a falar, a nos beijar, a dormir juntos, a procurar a mão do outro, o olhar do outro, como bonecos animados que continuam a se movimentar ruidosamente por um tempo, mesmo estando a mola do seu mecanismo quebrada... O cabelo e as unhas do morto continuam a crescer, talvez as células nervosas ainda sobrevivam quando os glóbulos vermelhos já estão mortos... Nada sabemos. O que posso fazer agora? Que refletor devo acender para encontrar nessa escuridão, nessa trama, aquele momento único, aquele milésimo de segundo em que algo cessa entre duas pessoas?" 7/19/2005 Pedem-me um poema . João Cabral de Melo Neto . [1995]Pedem-me um poema
um poema que seja inédito, poema é coisa que se faz vendo, como imaginar Picasso cego? Um poema se faz se vendo, um poema se faz para a vista, como fazer o poema ditado sem vê-lo na folha inescrita? Poema é composição, mesmo da coisa vivida, um poema é o que se arruma, dentro da desarrumada vida. Por exemplo, é como um rio, por exemplo, um Capibaribe, em suas margens domado para chegar ao Recife. Onde com o Beberibe, com o Tejipió, Jaboatão para fazer o Atlântico, todos se juntam a mão. Poema é coisa de ver, é coisa sobre um espaço, como se vê um Franz Weissman, como não se ouve um quadrado. [Franz Weissman . 1911 . 2005] |
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