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7/8/2005 Elegia 1938 . Carlos Drummond de AndradeTrabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. Praticas laboriosamente os gestos universais, sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual. Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção. À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas. Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer. Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras. Caminhas por entre os mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. A literatura estragou tuas melhores horas de amor. Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear. Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva. Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan. 7/4/2005 A seta e o alvo . Paulinho MoskaEu falo de amor à vida Eu ando num labirinto É a seta no alvo Eu olho pro infinito Eu lanço minha alma no espaço Era a seta no alvo Eu grito por liberdade Eu corro todos os riscos É a meta de uma seta no alvo Sempre a meta de uma seta no alvo 6/23/2005 Veja Bem, Meu Bem . Marcelo CameloVeja bem, meu bem 6/14/2005 Antes. o Verão . Carlos Heitor ConyAgora, escrevo especialmente para você. Ninguém saberá que é para você que estou escrevendo, e você mesma só sentirá isso depois de muitos, muitos dias, quando a dor e o tempo pousarem sobre seus olhos e tornarem sua carne mais neutra que a nuvem e mais breve que a espuma. Hoje, escrevo especialmente pra você, retomando um diálogo que bruscamente interrompêramos sem saber o que íamos fazer com as palavras que não chegamos a dizer, sem termos tempo de apagar as palavras que foram ditas e - infelizmente – guardadas e protegidas pelo nosso repentino ódio. Isso poderia ser o início ou o fim de um romance - e o é realmente, início e fim ao mesmo tempo. Afinal, terminamos o nosso prazo, esgotamos a clemência que atiramos um ao outro como esmola ou paga - e amanhã fecharemos essas portas e janelas e nunca mais retornaremos, nunca mais repetiremos o rito de verões e invernos que juntos consumimos, apoiados em nossos medos e redimidos em nossas alucinações. Tudo deu errado - e já não há coragem nem necessidade de procurarmos culpa ou o erro. Nem haverá tempo nem vontade para refazermos a nossa história com amor. E sem amor, de nada adiantará vivermos lado a lado, dia a dia, mágoa a mágoa. O verão acabou, Estávamos juntos por acaso quando o vento começou a soprar e levantar a areia. O céu já se preparava para a noite - e os pescadores que recolhiam as redes diziam sem palavras e sem gestos que o verão acabara. Já estávamos prontos para isso - e mais uma vez fomos perfeitos, estava tudo arrumado, a caminhonete abastecida e pronta para a viagem de amanhã e de volta, as roupas emaladas, os empregados pagos, o jardim preparado para o outono que agora se prolongará para todo o sempre. [...] Fomos perfeitos - digamos mais uma vez – neste verão que se acaba. Combináramos mais umas férias assim, nossos filhos viriam do colégio, esperavam o ano todo pelo verão, seria cruel negar-lhes isso - e fizemos o sacrifício juntos e juntos estivemos meses, como se tudo fosse outra vez durar para sempre, o verão e seus ventos, o mar e suas areias. Seu sal. Tudo passou depressa, parece que foi ontem que aqui chegamos e abrimos essas janelas que agora fecharemos e que tão cedo não se abrirão - e serão mãos estranhas que abrirão essas janelas para outros rostos receberem outros ventos. Vimos, juntos, os pescadores recolherem as redes, e, por um instante, tivemos vontade de avisar um ao outro: “Acabou”. Mas não foi preciso. Como as redes dos pescadores, em silêncio nos guardamos e voltamos para casa sem olhar os espantos e as tréguas que não poderemos dar mais, um ao outro. Você então foi para varanda, esperar pelos nossos filhos, que logo chegarão. Eu restei só. Só, como sempre procurei estar esses últimos dias. Breve virá o jantar e depois iremos cada qual para o seu lado. Não sei o sonho que visitará seus olhos. Eu velarei. Gastarei esta última noite horrivelmente lúcido, esbarrando em meus próprios escombros, flagelado pelos meus próprios fantasmas. Se eu gritar mais forte - não há o que temer: é que os fantasmas ou os escombros feriram mais fundo, e irreparavelmente. É certo, a vida logo se recomporá. Com mais ou menos sorte, continuaremos íntegros - e é isso o que importa. Talvez sejamos melhores agora, mais plácidos, ou mais conformados. Isso não conta, por hora. Conta é que estamos juntos pela última vez - e pela última vez ainda teremos a esperança de que amanhã será a eternidade indolor com que a solidão - lá fora - nos espera com saudade comum, e, quem sabe?, com o comum perdão. 6/6/2005 L'etranger . Albert Camus"J'ai compris alors qu'un homme qui n'arait vécu qu'un seul jour pourrait sans peine vivre cent ans dans une prison. Il aurait assez de souvenirs pour ne pas s'ennuyer." "Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldade passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar." |
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