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    6/19/2006

    Vinicius de Moraes

    "Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores?"
    3/30/2006

    Quem Te Viu, Quem Te Vê . Chico Buarque

    Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala
    Você era a favorita onde eu era mestre-sala
    Hoje a gente nem se fala mas a festa continua
    Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua

    Hoje o samba saiu, lá lalaiá, procurando você
    Quem te viu, quem te vê
    Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
    Quem jamais esquece não pode reconhecer

    Quando o samba começava você era a mais brilhante
    E se a gente se cansava você só seguia a diante
    Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado
    Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado

    O meu samba assim marcava na cadência os seus passos
    O meu sonho se embalava no carinho dos seus braços
    Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão
    Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão

    Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe
    De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse
    Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia
    Quem brincava de princesa acostumou na fantasia

    Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
    Quero que você me assista na mais fina companhia
    Se você sentir saudade por favor não de na vista
    Bate palma com vontade, faz de conta que é turista
    10/9/2005

    O que será [À flor da pele] . Chico Buarque [1976]

    O que será que me dá
    Que me bole por dentro, será que me dá
    Que brota à flor da pele, será que me dá
    E que me sobe às faces e me faz corar
    E que me salta aos olhos a me atraiçoar
    E que me aperta o peito e me faz confessar
    O que não tem mais jeito de dissimular
    E que nem é direito ninguém recusar
    E que me faz mendigo, me faz suplicar
    O que não tem medida, nem nunca terá
    O que não tem remédio, nem nunca terá
    O que não tem receita

    O que será que será
    Que dá dentro da gente e que não devia
    Que desacata a gente, que é revelia
    Que é feito uma aguardente que não sacia
    Que é feito estar doente de uma folia
    Que nem dez mandamentos vão conciliar
    Nem todos os ungüentos vão aliviar
    Nem todos os quebrantos, toda alquimia
    Que nem todos os santos, será que será
    O que não tem descanso, nem nunca terá
    O que não tem cansaço, nem nunca terá
    O que não tem limite

    O que será que me dá
    Que me queima por dentro, será que me dá
    Que me perturba o sono, será que me dá
    Que todos os tremores me vêm agitar
    Que todos os ardores me vêm atiçar
    Que todos os suores me vêm encharcar
    Que todos os meus nervos estão a rogar
    Que todos os meus órgãos estão a clamar
    E uma aflição medonha me faz implorar
    O que não tem vergonha, nem nunca terá
    O que não tem governo, nem nunca terá
    O que não tem juízo

     

    ...você...

    8/15/2005

    Pablo Neruda

    Não te amo como se fosse rosa do sal, topázio
    ou flecha de cravos que propagam o fogo:
    te amo como se amam certas coisas obscuras,
    secretamente, entre a sombra e a alma.

    Te amo como a planta que não floresce e leva
    dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
    e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
    o apertado aroma que ascendeu da terra.

    Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
    te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
    assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

    senão assim deste modo em que não sou nem és
    tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
    tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
    8/2/2005

    Divórcio em Buda . Sándor Márai

    "Quem poderia fotografar, registrar, tatear o instante em que algo se rompe entre duas pessoas? Quando aconteceu? De noite, enquanto dormíamos? No almoço, enquanto comíamos? Agora, quando vim ao consultório? Ou muito, muito tempo atrás, apenas não percebemos? E continuamos a viver, a falar, a nos beijar, a dormir juntos, a procurar a mão do outro, o olhar do outro, como bonecos animados que continuam a se movimentar ruidosamente por um tempo, mesmo estando a mola do seu mecanismo quebrada... O cabelo e as unhas do morto continuam a crescer, talvez as células nervosas ainda sobrevivam quando os glóbulos vermelhos estão mortos... Nada sabemos. O que posso fazer agora? Que refletor devo acender para encontrar nessa escuridão, nessa trama, aquele momento único, aquele milésimo de segundo em que algo cessa entre duas pessoas?"

    7/19/2005

    Pedem-me um poema . João Cabral de Melo Neto . [1995]

    Pedem-me um poema
    um poema que seja inédito,
    poema é coisa que se faz vendo,
    como imaginar Picasso cego?

    Um poema se faz se vendo,
    um poema se faz para a vista,
    como fazer o poema ditado
    sem vê-lo na folha inescrita?

    Poema é composição,
    mesmo da coisa vivida,
    um poema é o que se arruma,
    dentro da desarrumada vida.

    Por exemplo, é como um rio,
    por exemplo, um Capibaribe,
    em suas margens domado
    para chegar ao Recife.

    Onde com o Beberibe,
    com o Tejipió, Jaboatão
    para fazer o Atlântico,
    todos se juntam a mão.

    Poema é coisa de ver,
    é coisa sobre um espaço,
    como se vê um Franz Weissman,
    como não se ouve um quadrado.
     
    [Franz Weissman . 1911 . 2005]
    7/8/2005

    Elegia 1938 . Carlos Drummond de Andrade

    Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
    onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
    Praticas laboriosamente os gestos universais,
    sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

    Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
    e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
    À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
    ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

    Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
    e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
    Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
    e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

    Caminhas por entre os mortos e com eles conversas
    sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
    A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
    Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

    Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
    e adiar para outro século a felicidade coletiva.
    Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
    porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
    7/4/2005

    A seta e o alvo . Paulinho Moska

    Eu falo de amor à vida
    Você, de medo da morte
    Eu falo da força do acaso
    E você, de azar ou sorte

    Eu ando num labirinto
    E você numa estrada em linha reta
    Te chamo pra festa
    Mas você só quer atingir sua meta
    Sua meta

    É a seta no alvo
    Mas o alvo, na certa, não te espera

    Eu olho pro infinito
    E você de óculos escuros
    Eu digo: "te amo"
    E você só acredita quando eu juro

    Eu lanço minha alma no espaço
    Você pisa os pés na terra
    Eu experimento o futuro
    E você só lamenta não ser o que era
    E o que era?

    Era a seta no alvo
    Mas o alvo, na certa, não te espera

    Eu grito por liberdade
    Você deixa a porta se fechar
    Eu quero saber a verdade
    E você se preocupa em não se machucar

    Eu corro todos os riscos
    Você diz que não tem mais vontade
    Eu me ofereço inteiro
    E você se satisfaz com metade

    É a meta de uma seta no alvo
    Mas o alvo, na certa, não te espera
    Então me diz qual é a graça
    De já saber o fim da estrada
    Quando se parte rumo ao nada?

    Sempre a meta de uma seta no alvo
    Mas o alvo, na certa, não te espera
    Então me diz qual é a graça
    De já saber o fim da estrada
    Quando se parte rumo ao nada?

    6/23/2005

    Veja Bem, Meu Bem . Marcelo Camelo

    Veja bem, meu bem
    Sinto te informar que arranjei alguém
    pra me confortar.
    Este alguém está quando você sai
    E eu só posso crer, pois sem você
    nestes braços tais.

    Veja bem, amor.
    Onde está você?
    Somos no papel, mas não no viver.
    Viajar sem mim, me deixar assim.
    Tive que arranjar alguém pra passar os dias ruins.

    Enquanto isso, navegando vou sem paz.
    Sem ter um porto, quase morto, sem um cais.

    E eu nunca vou te esquecer amor,
    Mas a solidão deixa o coração neste leva e traz.

    Veja bem além destes fatos vis.
    Saiba, traições são bem mais sutis.
    Se eu te troquei não foi por maldade.
    Amor, veja bem, arranjei alguém
    chamado saudade.

    6/14/2005

    Antes. o Verão . Carlos Heitor Cony

    Agora, escrevo especialmente para você. Ninguém saberá que é para você que estou escrevendo, e você mesma só sentirá isso depois de muitos, muitos dias, quando a dor e o tempo pousarem sobre seus olhos e tornarem sua carne mais neutra que a nuvem e mais breve que a espuma.

    Hoje, escrevo especialmente pra você, retomando um diálogo que bruscamente interrompêramos sem saber o que íamos fazer com as palavras que não chegamos a dizer, sem termos tempo de apagar as palavras que foram ditas e - infelizmente – guardadas e protegidas pelo nosso repentino ódio.

    Isso poderia ser o início ou o fim de um romance - e o é realmente, início e fim ao mesmo tempo. Afinal, terminamos o nosso prazo, esgotamos a clemência que atiramos um ao outro como esmola ou paga - e amanhã fecharemos essas portas e janelas e nunca mais retornaremos, nunca mais repetiremos o rito de verões e invernos que juntos consumimos, apoiados em nossos medos e redimidos em nossas alucinações.

    Tudo deu errado - e já não há coragem nem necessidade de procurarmos culpa ou o erro. Nem haverá tempo nem vontade para refazermos a nossa história com amor. E sem amor, de nada adiantará vivermos lado a lado, dia a dia, mágoa a mágoa.

    O verão acabou, Estávamos juntos por acaso quando o vento começou a soprar e levantar a areia. O céu já se preparava para a noite - e os pescadores que recolhiam as redes diziam sem palavras e sem gestos que o verão acabara. Já estávamos prontos para isso - e mais uma vez fomos perfeitos, estava tudo arrumado, a caminhonete abastecida e pronta para a viagem de amanhã e de volta, as roupas emaladas, os empregados pagos, o jardim preparado para o outono que agora se prolongará para todo o sempre.

    [...]

    Fomos perfeitos - digamos mais uma vez – neste verão que se acaba. Combináramos mais umas férias assim, nossos filhos viriam do colégio, esperavam o ano todo pelo verão, seria cruel negar-lhes isso - e fizemos o sacrifício juntos e juntos estivemos meses, como se tudo fosse outra vez durar para sempre, o verão e seus ventos, o mar e suas areias. Seu sal.

    Tudo passou depressa, parece que foi ontem que aqui chegamos e abrimos essas janelas que agora fecharemos e que tão cedo não se abrirão - e serão mãos estranhas que abrirão essas janelas para outros rostos receberem outros ventos.

    Vimos, juntos, os pescadores recolherem as redes, e, por um instante, tivemos vontade de avisar um ao outro: “Acabou”.

    Mas não foi preciso. Como as redes dos pescadores, em silêncio nos guardamos e voltamos para casa sem olhar os espantos e as tréguas que não poderemos dar mais, um ao outro. Você então foi para varanda, esperar pelos nossos filhos, que logo chegarão.

    Eu restei só. Só, como sempre procurei estar esses últimos dias. Breve virá o jantar e depois iremos cada qual para o seu lado. Não sei o sonho que visitará seus olhos. Eu velarei. Gastarei esta última noite horrivelmente lúcido, esbarrando em meus próprios escombros, flagelado pelos meus próprios fantasmas. Se eu gritar mais forte - não há o que temer: é que os fantasmas ou os escombros feriram mais fundo, e irreparavelmente.

    É certo, a vida logo se recomporá. Com mais ou menos sorte, continuaremos íntegros - e é isso o que importa. Talvez sejamos melhores agora, mais plácidos, ou mais conformados.

    Isso não conta, por hora. Conta é que estamos juntos pela última vez - e pela última vez ainda teremos a esperança de que amanhã será a eternidade indolor com que a solidão - lá fora - nos espera com saudade comum, e, quem sabe?, com o comum perdão.

    6/6/2005

    L'etranger . Albert Camus

    "J'ai compris alors qu'un homme qui n'arait vécu qu'un seul jour pourrait sans peine vivre cent ans dans une prison. Il aurait assez de souvenirs pour ne pas s'ennuyer."

    "Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldade passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar."